Planejamento (FP&A)

Conscious unbossing: só 25% da Geração Z brasileira quer subir rápido, e a cadeira de gestor é a primeira baixa

Robert Walters achou 52% dos jovens no Reino Unido relutantes em virar gestor, e a Deloitte achou o mesmo freio no Brasil. Veja o risco para o headcount.

Time Gridzi9 min de leitura

Uma pesquisa da Robert Walters com profissionais no Reino Unido encontrou 52% das pessoas com menos de 30 anos relutantes em assumir um cargo de gestão média, e 16% dizem que evitariam essa cadeira de qualquer jeito. O mercado deu nome a esse movimento: conscious unbossing, a decisão de recusar a promoção para gestor e manter o crescimento de carreira dentro de uma trilha técnica. No Brasil, a Pesquisa Gen Z & Millennial 2026 da Deloitte, com 804 respondentes ouvidos entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, achou o mesmo freio: só 25% da Geração Z e 21% dos millennials preferem uma progressão acelerada, com promoções rápidas. Para quem monta o banco de sucessores hoje, essa recusa silenciosa é uma linha nova no planejamento de headcount, não só um assunto de cultura organizacional.

CONSCIOUS UNBOSSINGcadeira de gestor52% relutamtrilha técnica72% preferemRobert Walters, R.U. · Deloitte, Brasil 2026
Uma pessoa se divide em dois caminhos: a cadeira de gestor, com uma barra que encolhe e 52% de relutância, e a trilha técnica, com uma barra que cresce e 72% de preferência.

#O que é conscious unbossing?

Conscious unbossing é a recusa deliberada de uma promoção para cargo de gestão, com a pessoa optando por continuar crescendo dentro de uma trilha técnica ou de especialista. O termo pegou em 2024 e seguiu aparecendo em levantamentos ao longo de 2025 e 2026, sempre com o mesmo padrão: quem está entrando agora no mercado vê a cadeira de gestão média como um degrau que custa mais do que entrega. Na pesquisa da Robert Walters, 69% da Geração Z considera o cargo estressante demais e pouco recompensador, e 72% dizem preferir seguir uma trilha de carreira baseada em especialização individual. A variação por país existe (a mesma onda de pesquisas achou 42% de relutância entre jovens profissionais na Suíça, um pouco abaixo do número do Reino Unido), mas a direção é a mesma em todos os lugares onde a pergunta foi feita.

#Por que a cadeira de gestor perdeu o apelo?

Ela perdeu o apelo porque quem está de fora vendo o cargo enxerga o pior lado dele: mais reunião, mais cobrança, menos autonomia sobre o próprio trabalho e, com frequência, nenhum preparo para lidar com isso. Lucy Bisset, diretora da Robert Walters North, resume o motivo:

A Geração Z é conhecida pela mentalidade empreendedora, prefere trazer o "eu completo" para os projetos e passar o tempo cultivando a própria marca e abordagem, em vez de gerenciar outras pessoas. Não é que a Geração Z não respeite a liderança: é que eles associam gestão a estresse, autonomia limitada e baixo equilíbrio entre vida pessoal e profissional. (tradução livre)

Lucy Bisset, diretora da Robert Walters North

Essa associação não nasce de preconceito contra o cargo, nasce de observação direta. O Chartered Management Institute (CMI), no Reino Unido, encontrou 82% dos gestores em exercício sem qualquer treinamento formal para a função: o fenômeno que o próprio CMI batizou de "gestor acidental", alguém promovido pela entrega técnica e deixado para aprender a gerenciar pessoas sozinho, no cargo. Já mostramos esse mesmo padrão no guia sobre gestor de primeira viagem, onde a Gallup encontrou 65% dos supervisores chegando ao primeiro cargo de gestão pela entrega, não pela liderança, e só 45% recebendo qualquer treinamento no primeiro ano. A Geração Z não está recusando a gestão por capricho. Está vendo, em tempo real, o gestor acidental que a empresa acabou de promover sem preparo, e decidindo não repetir o experimento.

Profissionais com menos de 30 anos no Reino Unido relutantes em virar gestor

Outros 16% dizem que evitariam a cadeira de qualquer jeito (Robert Walters)

52%

Gestores no Reino Unido sem qualquer treinamento formal para o cargo

O "gestor acidental" que ajuda a explicar a relutância (CMI)

82%

Geração Z no Brasil que prefere promoção rápida na carreira

A maioria prefere crescimento gradual ou movimentação lateral (Deloitte)

25%

Os dois primeiros números vêm de pesquisas no Reino Unido: a Robert Walters ouviu profissionais sobre a disposição de assumir um cargo de gestão média, e o Chartered Management Institute (CMI) mediu quantos gestores em exercício nunca receberam treinamento para o cargo. O terceiro vem da Pesquisa Gen Z & Millennial 2026 da Deloitte, com 804 respondentes no Brasil.

#O Brasil segue o mesmo padrão da Geração Z global?

Segue, com um ingrediente extra: pressão financeira. A Pesquisa Gen Z & Millennial 2026 da Deloitte, a 15ª edição de um estudo que ouviu quase 23 mil pessoas em 44 países, entrevistou 804 profissionais no Brasil, 501 da Geração Z e 303 millennials, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Apenas 25% da Geração Z e 21% dos millennials brasileiros disseram preferir uma progressão de carreira acelerada, com promoções rápidas; a maioria prefere um crescimento mais gradual ou movimentações laterais. A mesma pesquisa achou 45% da Geração Z e 36% dos millennials no Brasil relatando ter precisado postergar decisões importantes por insegurança econômica. Um cargo que aumenta a exposição e a cobrança, sem aumentar a sensação de estabilidade, compete em desvantagem direta com essa cautela.

A relutância diante da cadeira de gestor aparece no Reino Unido e no Brasil, com o treinamento inexistente e a cautela financeira como parte da explicação.
IndicadorNúmeroFonte
Profissionais com menos de 30 anos (Reino Unido) relutantes em virar gestor52%Robert Walters, 2026
Os mesmos profissionais que evitariam a cadeira de gestor de qualquer jeito16%Robert Walters, 2026
Geração Z (Reino Unido) que vê o cargo como estresse alto e recompensa baixa69%Robert Walters, 2026
Geração Z (Reino Unido) que prefere trilha de carreira individual, por especialização72%Robert Walters, 2026
Jovens profissionais na Suíça com a mesma relutância42%Reportado com a pesquisa Robert Walters, 2026
Gestores no Reino Unido sem qualquer treinamento formal para o cargo82%Chartered Management Institute
Geração Z no Brasil que prefere promoção rápida na carreira25%Deloitte, Pesquisa Gen Z & Millennial 2026
Millennials no Brasil com a mesma preferência21%Deloitte, Pesquisa Gen Z & Millennial 2026
A relutância diante da cadeira de gestor aparece no Reino Unido e no Brasil, com o treinamento inexistente e a cautela financeira como parte da explicação.

#O recuo é estrutural, não é falta de ambição

Chamar isso de falta de ambição é confundir a causa com o efeito. O mesmo estudo da Randstad que já detalhamos no texto sobre carreiras de portfólio encontrou 72% dos empregadores admitindo que a carreira em escada, o modelo em que só existe uma direção de crescimento (virar gestor), já está ultrapassada. O problema é que a maioria das empresas ainda não redesenhou o plano de cargos para refletir isso. Continuam com uma única trilha de ascensão, a mesma que a nova geração está evitando, e chamam de falta de ambição o que é, na prática, falta de alternativa bem desenhada.

#Como ajustar o planejamento de headcount antes que o banco de sucessores seque?

O ajuste passa por tratar a recusa da gestão como um risco de sucessão, com o mesmo rigor que já se dá a turnover ou a vaga em aberto. Quatro frentes ajudam a começar.

  1. Abra uma trilha técnica com status e remuneração equivalentes à trilha de gestão. Se o único caminho de crescimento salarial passa pela cadeira de gestor, a empresa está pedindo para o especialista mais qualificado aceitar um cargo que ele já disse, em pesquisa após pesquisa, que não quer.
  2. Treine antes de promover, não depois. O gap de treinamento no primeiro ano é parte do motivo da relutância. Reduzir esse gap em quem já está no cargo é também um sinal para quem está decidindo se aceita a próxima promoção.
  3. Meça quem recusa a promoção, não só quem aceita. A maioria das empresas só rastreia quem foi promovido. Poucas perguntam, de forma estruturada, quantas pessoas elegíveis disseram não, e por quê. Esse número é o primeiro sinal de que o banco de sucessores está mais raso do que o organograma sugere, o mesmo risco que detalhamos no texto sobre planejamento de sucessão.
  4. Leve esse indicador para o orçamento, não só para o RH. Um cargo de gestão vago por falta de candidato qualificado dispara backfill, hora extra e contratação externa emergencial, custos que aparecem na folha muito antes de aparecerem em qualquer relatório de cultura.

A cadeira de gestor não vai desaparecer. Mas o pressuposto de que sempre vai ter fila para ocupá-la já não se sustenta em nenhuma das pesquisas citadas aqui, no Reino Unido ou no Brasil. Empresas que continuarem tratando a promoção para gestão como o único degrau disponível vão descobrir esse buraco no pior momento possível: quando o cargo crítico fica vago e não há candidato disposto a assumi-lo.

Dados sobre relutância em assumir cargos de gestão média no Reino Unido (52% dos profissionais com menos de 30 anos, 16% de recusa categórica, 69% vendo o cargo como estresse alto e recompensa baixa, 72% preferindo trilha individual) e a comparação com a Suíça (42%): pesquisa da Robert Walters sobre conscious unbossing, 2026, com citação de Lucy Bisset, diretora da Robert Walters North. Dado sobre gestores sem treinamento formal (82%): Chartered Management Institute (CMI), Reino Unido. Dados sobre o Brasil (25% da Geração Z e 21% dos millennials preferindo promoção rápida, 45% e 36% relatando ter postergado decisões por insegurança econômica): Deloitte, Pesquisa Gen Z & Millennial 2026 (15ª edição), 804 respondentes no Brasil (501 da Geração Z, 303 millennials), coleta entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, parte de um estudo global com quase 23 mil pessoas em 44 países. Dado sobre a carreira em escada considerada ultrapassada por 72% dos empregadores: Workmonitor 2026, Randstad.

#Perguntas frequentes

O que é conscious unbossing?
É a decisão deliberada de recusar uma promoção para um cargo de gestão, optando por continuar crescendo dentro de uma trilha técnica ou de especialista. Uma pesquisa da Robert Walters no Reino Unido encontrou 52% das pessoas com menos de 30 anos relutantes em assumir esse tipo de cargo.
Por que a Geração Z está recusando cargos de gestão?
Porque associa o cargo a estresse alto, autonomia limitada e baixo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, segundo a Robert Walters. Isso é reforçado pela falta de treinamento de quem já está na função: o Chartered Management Institute encontrou 82% dos gestores no Reino Unido sem qualquer preparo formal para o cargo.
Os dados sobre conscious unbossing aparecem também no Brasil?
Sim. A Pesquisa Gen Z & Millennial 2026 da Deloitte, com 804 respondentes no Brasil, encontrou apenas 25% da Geração Z e 21% dos millennials preferindo uma progressão de carreira acelerada, com promoções rápidas, e a maioria relatando ter postergado decisões importantes por insegurança econômica.
Como o planejamento de headcount deve reagir a essa recusa da gestão média?
Quatro frentes ajudam: abrir uma trilha técnica com status e remuneração equivalentes à trilha de gestão, treinar quem já está no cargo antes de promover mais gente, medir quantas pessoas elegíveis recusam a promoção e não só quem aceita, e levar esse indicador ao orçamento de headcount ao lado de turnover e vagas em aberto.
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