Planejamento (FP&A)

Desemprego no menor nível da história: o que o mercado de trabalho apertado muda no planejamento de headcount

IBGE confirma desemprego no menor nível da história e 80% das empresas dizem ter dificuldade para contratar. Veja o que isso muda no planejamento de headcount.

Time Gridzi8 min de leitura

No trimestre encerrado em maio de 2026, a taxa de desocupação no Brasil caiu para 5,6%, a menor já registrada para o período desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. No mesmo momento, 80% dos empregadores brasileiros relataram dificuldade para preencher vagas, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 da ManpowerGroup. O detalhe que muda a conversa sobre planejamento de headcount é o terceiro número: a produtividade do trabalho no Brasil cresce, em média, 1% ao ano desde 1988, segundo o economista Adalmir Marquetti. O mercado está mais disputado, contratar custa mais caro, e a empresa não está produzindo mais por pessoa para pagar essa conta.

MERCADO DE TRABALHO EM 20265,6%desocupação mínima~1%/anoprodutividade, 1988-2025MERCADO APERTADOsem produzir mais por pessoa para pagar a conta80% das empresas já sentem a dificuldade de contratar
Os dois lados do mercado de trabalho em 2026: desemprego na mínima histórica de um lado, produtividade quase parada há 37 anos do outro.

#Os números do primeiro semestre de 2026: desemprego na mínima histórica

A queda do desemprego não foi um evento de um mês isolado. A sequência de trimestres móveis divulgados pelo IBGE ao longo de 2026 mostra um mercado de trabalho que se mantém aquecido mesmo com a oscilação sazonal típica do início do ano, quando o comércio dispensa parte do reforço de fim de ano e a desocupação costuma subir.

Sequência de trimestres móveis do início de 2026, segundo o IBGE. A oscilação sazonal de janeiro não muda a tendência de fundo: o mercado de trabalho brasileiro segue historicamente apertado.
Trimestre móvel (PNAD Contínua)DesocupaçãoSubutilizaçãoO que os dados mostram
Out-dez/20255,1%-Melhor resultado da série para o período até então
Jan-mar/20266,1%-Alta sazonal de início de ano, mas 0,9 p.p. abaixo do mesmo trimestre de 2025
Fev-abr/20265,8%13,8%6,3 milhões de pessoas ainda procuravam trabalho sem conseguir
Mar-mai/20265,6%13,3%Menor taxa para o período desde o início da série, em 2012
Sequência de trimestres móveis do início de 2026, segundo o IBGE. A oscilação sazonal de janeiro não muda a tendência de fundo: o mercado de trabalho brasileiro segue historicamente apertado.

Por trás da taxa, o retrato completo do trimestre encerrado em maio reforça o mesmo ponto. A população ocupada chegou a 102,7 milhões de pessoas, alta de 0,8% em um ano (mais 840 mil pessoas trabalhando), enquanto o contingente de desempregados caiu para 6,1 milhões, 9,3% a menos que no mesmo trimestre de 2025. A renda média real também subiu, para R$ 3.726, alta de 4,0% no ano, e a massa de rendimento real do trabalho cresceu 4,8% na mesma comparação.

A estabilidade na variação é sazonal, pois é o período em que os setores começam a olhar para o segundo semestre, mas atingir a mínima histórica para o período indica que o mercado mantém uma tendência estrutural de aquecimento e expansão na absorção de mão de obra.

William Kratochwill, analista da pesquisa, sobre a divulgação da PNAD Contínua de maio de 2026 (IBGE)

#O outro lado da conta: a produtividade que não sai do lugar

Um mercado de trabalho aquecido costuma vir acompanhado de mais produção por pessoa, o argumento mais comum para justificar salário maior e vaga mais disputada. No Brasil, essa segunda metade da equação não aparece nos números. Entre 1988 e 2025, a produtividade do trabalho brasileira acumulou alta de 30,9%, segundo a metodologia do economista Adalmir Marquetti, ou 34,2% pela estimativa do FGV-OPRB. Em qualquer uma das duas contas, o resultado é o mesmo: uma média de apenas 1% ao ano ao longo de 37 anos.

O ritmo recente não ajuda a reverter esse quadro. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV/IBRE), a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,1% em 2024, uma desaceleração forte frente aos 2,3% de 2023. Na comparação internacional, a distância aumenta: pelos dados da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países em produtividade, com um trabalhador brasileiro produzindo em média US$ 21,2 por hora, atrás do Uruguai (US$ 38), do Chile (US$ 34,4), da Argentina (US$ 33,8) e até de Cuba (US$ 22,6). E isso apesar de o brasileiro trabalhar, em média, 38,9 horas por semana, mais do que a maioria dos 184 países da lista.

#Por que fica mais caro contratar (e mais caro perder) gente

O desemprego baixo, sozinho, já empurra o custo de uma vaga para cima: menos gente disponível, mais concorrência entre empresas pelo mesmo perfil. Os dados de quem está na ponta de contratar confirmam esse aperto. Na Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 da ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para preencher vagas, um índice que se repete quase sem mudança desde 2023, o que aponta para um problema estrutural, não uma fase passageira. O FGV/IBRE chega a um número diferente na mesma direção: com o desemprego em baixa histórica, 62% das empresas apontam dificuldade para contratar ou reter profissionais.

5,6% de desocupação

menor taxa da série histórica para o trimestre encerrado em maio, iniciada em 2012 (IBGE)

5,6%

80% das empresas

relatam dificuldade para preencher vagas, patamar estável desde 2023 (ManpowerGroup)

80%

Produtividade do trabalho

cresceu em média 1% ao ano entre 1988 e 2025, a mesma régua de sempre (Marquetti/FGV-OPRB)

~1%/ano

O mercado está mais disputado por dois lados ao mesmo tempo (desocupação baixa, vaga difícil de preencher), mas o terceiro número não acompanha: a produtividade do trabalho segue na mesma régua de quase quatro décadas. Contratar ficou mais caro sem que a empresa produza mais por pessoa para pagar essa conta.

Os três números que resumem o descompasso: mercado apertado dos dois lados, produtividade na mesma régua de sempre.

Isso muda o cálculo de reposição de uma vaga. Quando sai alguém que já entrega, o RH não compete só pelo salário, compete por tempo, porque a vaga demora mais para fechar, e por prêmio salarial, porque quem está disponível sabe que tem opção. Como mostramos no artigo sobre o recorde de pedidos de demissão no Brasil, o país bateu a marca de 8,5 milhões de demissões voluntárias em 2024, o que quer dizer que esse turnover mais caro está acontecendo em volume, não como exceção isolada. Para saber o que somar nessa conta antes de abrir a próxima vaga, veja o guia sobre quanto custa contratar mais uma pessoa.

#O que muda no planejamento de headcount: quatro ajustes para 2026

Nenhum desses números pede para parar de contratar. Pedem para contratar com outro critério, mais perto de uma decisão de investimento do que de reposição automática. Quatro ajustes, na ordem em que costumam fazer efeito mais rápido:

  1. Precifique a vaga pelo mercado de hoje, não pelo orçamento do ano passado. Com a renda real subindo 4,0% ao ano e o mercado mais disputado, uma faixa salarial definida há doze meses já nasce defasada. Antes de abrir a vaga, revise o ponto na grade com o compa-ratio da própria estrutura de cargos, em vez de repetir o número do último processo seletivo.
  2. Proteja quem já entrega antes de abrir vaga nova. Num mercado em que 80% das empresas já sentem dificuldade para contratar, reter custa menos do que repor. Uma conversa de carreira ou um ajuste salarial pontual quase sempre sai mais barato que o tempo de vaga aberta somado ao prêmio pago para atrair quem vai substituir a pessoa.
  3. Meça produtividade por cabeça, não só custo por cabeça. O orçamento de pessoal costuma acompanhar quanto cada contratação custa, raramente quanto cada contratação produz. Sem esse segundo número, fica impossível saber se o headcount está crescendo junto com a receita ou só junto com o calendário.
  4. Trate cada contratação como decisão de capital, não como reposição automática. A justificativa não pode ser só "o time está sobrecarregado" ou "sempre tivemos essa vaga". Leve ao comitê o cenário completo de custo e de retorno esperado, do jeito que mostramos no guia de planejamento de headcount: se a vaga cabe no orçamento antes de abrir o processo, não depois de fechar a contratação.

O desemprego na mínima histórica é uma notícia boa para quem procura emprego e uma notícia cara para quem precisa contratar. A pergunta que fica para 2026 não é se o mercado vai continuar apertado. Os dados do primeiro semestre já respondem isso. A pergunta é se o planejamento de headcount da empresa já assumiu esse custo, ou se ainda está orçado como se a produtividade fosse subir sozinha para pagar a conta.

Taxa de desocupação de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, 6,1% no trimestre encerrado em março de 2026, 5,8% no trimestre encerrado em abril (com taxa de subutilização de 13,8% e 6,3 milhões de pessoas desempregadas) e 5,6% no trimestre encerrado em maio (com subutilização de 13,3%, população ocupada de 102,7 milhões, alta de 0,8% no ano, e população desempregada de 6,1 milhões, queda de 9,3% no ano), incluindo a renda média real de R$ 3.726 (alta de 4,0% no ano) e a massa de rendimento real (alta de 4,8% no ano), com a declaração de William Kratochwill: IBGE, Agência de Notícias, PNAD Contínua. Crescimento acumulado de 30,9% na produtividade do trabalho entre 1988 e 2025, segundo a metodologia do economista Adalmir Marquetti, publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com a estimativa alternativa de 34,2% do FGV-OPRB. Crescimento de 0,1% na produtividade em 2024, ante 2,3% em 2023, segundo o Blog do IBRE (FGV). Posição do Brasil (94ª de 184 países) e produtividade de US$ 21,2 por hora segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, com a comparação a Uruguai, Chile, Argentina e Cuba e a média de 38,9 horas semanais trabalhadas, conforme reportagem do Poder360. Índice de 80% dos empregadores brasileiros com dificuldade para preencher vagas, estável desde 2023, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 da ManpowerGroup. Índice de 62% das empresas com dificuldade para contratar ou reter profissionais mesmo com o desemprego em baixa histórica, segundo o Blog do IBRE (FGV). Recorde de 8,5 milhões de demissões voluntárias no Brasil em 2024, detalhado no artigo sobre o job hugging e o turnover recorde no Brasil.

#Perguntas frequentes

Por que o desemprego caiu tanto no Brasil em 2026?
Os dados do IBGE mostram um mercado em aquecimento estrutural, não um evento de um mês isolado: a desocupação passou de 5,1% (trimestre encerrado em dezembro de 2025) para 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, a menor taxa da série histórica para o período, iniciada em 2012. Segundo o analista do IBGE William Kratochwill, o resultado indica "uma tendência estrutural de aquecimento e expansão na absorção de mão de obra".
O desemprego baixo quer dizer que a produtividade também está subindo?
Não. Entre 1988 e 2025, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu em média apenas 1% ao ano, segundo o economista Adalmir Marquetti e o FGV-OPRB, e avançou só 0,1% em 2024, ante 2,3% em 2023, conforme o FGV/IBRE. O Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países em produtividade, segundo a Organização Internacional do Trabalho.
Por que fica mais caro contratar com o desemprego em baixa histórica?
Menos gente disponível significa mais concorrência entre empresas pelo mesmo perfil. Na Pesquisa de Escassez de Talentos 2026 da ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para preencher vagas, um índice estável desde 2023. O FGV/IBRE encontra 62% das empresas com dificuldade para contratar ou reter profissionais mesmo com o desemprego em queda.
O que uma empresa deveria mudar no planejamento de headcount agora?
Quatro ajustes fazem efeito mais rápido: precificar a vaga pelo mercado atual em vez do orçamento do ano passado, proteger quem já entrega antes de abrir vaga nova, medir produtividade por cabeça e não só custo por cabeça, e tratar cada contratação como uma decisão de capital, com cenário de custo e retorno, em vez de reposição automática.
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