Planejamento (FP&A)

Semana de 4 dias no Brasil: o que os números do piloto revelam

O piloto brasileiro da semana de 4 dias reduziu ansiedade e aumentou produtividade, mas só 2 das 20 empresas mantiveram o modelo. Veja os dados e o porquê.

Time Gridzi9 min de leitura

Um piloto de seis meses com 21 empresas brasileiras testou a semana de 4 dias entre 2024 e 2025, conduzido pela 4 Day Week Brazil com a Reconnect Happiness at Work e pesquisadores da FGV EAESP. Os números por si só já convenceriam qualquer diretoria: 71,5% dos participantes perceberam aumento de produtividade, 60,3% relataram mais engajamento e a exaustão frequente caiu 72,8%. O desfecho é o dado que RH e financeiro deveriam guardar: até junho de 2026, apenas 2 das 20 empresas que chegaram ao fim do teste mantinham oficialmente a jornada reduzida, segundo levantamento do InfoMoney. A produtividade não foi o problema. O que faltou foi um plano de custo e de cobertura para depois da euforia do piloto.

PILOTO DA SEMANA DE 4 DIASSEGTERQUAQUISEX2 de 20empresas mantiveram o modelo no Brasilprodutividade subiu, a permanência não
Cinco dias, quatro ativos: o piloto brasileiro testou o modelo 100-80-100 (salário integral, 80% da jornada, mesma produtividade esperada) por seis meses.

#O que o piloto brasileiro da semana de 4 dias encontrou?

Encontrou ganho real de bem-estar e produtividade percebida, medido em 21 empresas de tecnologia, publicidade e contabilidade no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, mais um hospital que testou o modelo com o time administrativo. Das 21, 19 concluíram o teste de seis meses, com cerca de 280 funcionários envolvidos. O desenho seguiu o padrão internacional do movimento 4 Day Week: modelo 100-80-100, ou seja, 100% do salário, 80% da jornada (a semana caiu para algo em torno de 35 horas) e a expectativa explícita de manter 100% da produtividade.

Os resultados, publicados pela FGV EAESP com os pesquisadores Paul Ferreira e Fernando Deodato Domingos, vieram consistentes nas quatro frentes que o estudo mediu.

Percepção de aumento de produtividade71,5%
Aumento no engajamento com o trabalho60,3%
Queda na exaustão frequente72,8%
Redução da ansiedade semanal30,5%

Piloto brasileiro da semana de 4 dias (21 empresas, cerca de 280 funcionários, 6 meses, modelo 100-80-100): efeito percebido pelos próprios participantes em produtividade, engajamento, exaustão e ansiedade (4 Day Week Brazil, Reconnect Happiness at Work e FGV EAESP).

Efeito percebido pelos próprios participantes do piloto brasileiro, em produtividade, engajamento, exaustão e ansiedade.

Cerca de 72% das empresas participantes também registraram alta de receita durante o período do piloto, o que devia ter sido argumento suficiente para qualquer comitê orçamentário aprovar a continuidade. Não foi.

#Por que só 2 em cada 20 empresas mantiveram o modelo?

A resposta não está nos números de produtividade, que seguiram bons até o fim do teste. Está no que aconteceu depois, quando o piloto deixou de ser notícia e virou decisão operacional recorrente. Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, dois fatores pesaram mais: uma barreira cultural que ainda não fechou nem a discussão mais básica de jornada no país, a da escala 6x1, e a piora do ambiente econômico ao longo de 2025 e 2026, que empurrou parte das lideranças de volta a modelos de comando e controle mais tradicionais. Há também um componente global nisso: o próprio movimento 4 Day Week, nascido na Nova Zelândia em 2019 e fortalecido na pandemia, hoje enfrenta um discurso corporativo mais conservador, puxado em boa parte dos Estados Unidos.

Fabrício Oliveira, CEO da Vockan e uma das empresas que manteve a semana de 4 dias em definitivo, descreveu bem a resistência inicial que qualquer piloto desse tipo enfrenta dentro de casa.

Quando fiz a proposta de trabalharmos um dia a menos, os setores financeiro, de logística e operação, e de atendimento ao cliente acharam que eu estava ficando louco, que ia impactar negativamente os resultados, mas eu já via o movimento na Europa e sabia que tinha tudo para dar certo.

Fabrício Oliveira, CEO da Vockan, em depoimento à imprensa sobre o piloto brasileiro

A citação expõe o ponto central: a resistência não vinha de RH, vinha de quem precisa fechar a conta no fim do mês. Financeiro, logística e atendimento reagem ao que fica mais caro ou mais lento de coordenar, não ao que aparece numa pesquisa de clima. Quando o piloto termina sem um plano formal para essas três áreas, a decisão de reverter fica fácil de justificar, mesmo com a produtividade do lado favorável.

#Por que o Reino Unido chegou a um resultado tão diferente?

Chegou porque a diferença entre os dois países não está no piloto em si. Um teste equivalente no Reino Unido, com 17 empresas e cerca de mil funcionários ao longo de seis meses, terminou com as 17 empresas mantendo o modelo já na saída do teste. Um ano depois, cerca de 90% delas ainda seguiam com a semana reduzida.

Os dois pilotos mediram ganhos parecidos durante o teste. A divergência aparece na permanência do modelo depois.
IndicadorBrasil (piloto 2024–2025)Reino Unido (piloto 2024–2025)
Empresas no piloto2117
Funcionários envolvidos≈280≈1.000
Duração do teste6 meses6 meses
Empresas com alta de receita durante o piloto≈72%1,4% em média; 34%+ em 24 empresas
Mantiveram o modelo ao final do testeMinoria, a maioria ajustou para híbrido17 de 17
Situação registrada 1 a 2 anos depois2 de 20 empresas (jun/2026)≈90% das empresas (1 ano depois)
Os dois pilotos mediram ganhos parecidos durante o teste. A divergência aparece na permanência do modelo depois.

Brasil

Empresas que mantinham a jornada reduzida em junho de 2026

2 de 20

10% do piloto original

Reino Unido

Empresas que seguiam com o modelo um ano após o piloto

~90%

17 de 17 mantiveram já ao fim do teste

Os dois pilotos mediram ganhos parecidos de produtividade e bem-estar durante o teste. A diferença apareceu depois: no Brasil, a maioria das empresas voltou aos 5 dias entre 2025 e 2026 (InfoMoney); no Reino Unido, quase todas seguiram com a redução um ano depois (4 Day Week Global, Autonomy Institute).

A distância entre os dois países não está na produtividade medida durante o piloto, está em quem ainda mantinha o modelo depois.

O piloto britânico também trouxe turnover 57% menor entre as empresas participantes e queda de quase dois terços nos dias de afastamento por doença, dois números que criam um argumento financeiro direto: menos substituição, menos absenteísmo, contas que qualquer CFO reconhece sem precisar de pesquisa de clima. No Brasil, o piloto mostrou sinais parecidos de bem-estar, mas sem uma métrica de retenção comparável amplamente divulgada, o que deixou o argumento financeiro menos concreto no momento em que o orçamento apertou.

#O que muda no planejamento de pessoal antes de testar a semana de 4 dias?

Muda o momento em que a conta é feita. A maior parte dos pilotos, no Brasil e fora dele, mede clima e produtividade durante o teste e deixa o custo para depois, quando a decisão de continuar já está sob pressão do orçamento do próximo ano. Quatro ajustes resolvem boa parte desse risco:

  • Simule o custo de hora extra e reforço de equipe nos dias e horários de pico antes de comprimir a jornada, do jeito que detalhamos em custo da hora extra na folha CLT. Um time que já opera perto do limite em quinta e sexta pode transformar a folga em hora extra disfarçada.
  • Modele o cenário de custo de pessoal com e sem a redução antes de anunciar o piloto, e não só durante ele. Isso é o que separa um exercício de clima de um exercício real de FP&A de folha de pagamento: comparar cenários com número, não só com percepção.
  • Trate a jornada reduzida como uma alavanca de custo entre outras, ao lado das que já mapeamos em como reduzir custo de pessoal sem demitir, e decida com o mesmo rigor que se usaria para aprovar uma vaga nova.
  • Defina o critério de continuidade antes do piloto começar, não durante nem depois. Produtividade percebida, receita e engajamento ajudam a decisão, mas sem um número de retenção e cobertura combinado com antecedência, como discutimos em planejamento de força de trabalho, a reversão vira o caminho mais fácil assim que o cenário econômico aperta.

O Brasil não descartou a semana de 4 dias. A Vockan e um pequeno grupo de empresas seguem com o modelo, e uma segunda leva de pilotos já está em curso pelo país. O que ficou claro no primeiro ciclo é que produtividade boa não é o mesmo que decisão sustentável. A próxima rodada só vai se sustentar em mais empresas se o plano de custo sobreviver ao mesmo teste de realidade que qualquer outra mudança de headcount precisa passar.

Resultados do piloto brasileiro (21 empresas, ≈280 funcionários, 6 meses, modelo 100-80-100, produtividade percebida de 71,5%, engajamento de 60,3%, queda de exaustão de 72,8%, redução de ansiedade de 30,5% e alta de receita em ≈72% das empresas): 4 Day Week Brazil, Reconnect Happiness at Work e FGV EAESP (pesquisadores Paul Ferreira e Fernando Deodato Domingos), 2024–2025. Situação de continuidade em junho de 2026 (2 de 20 empresas mantendo o modelo oficialmente) e o depoimento de Fabrício Oliveira, CEO da Vockan: InfoMoney, 2026. Resultados do piloto britânico (17 empresas, ≈1.000 funcionários, 6 meses, 17 de 17 mantendo o modelo ao final, ≈90% um ano depois, receita 1,4% em média e 34%+ em 24 empresas, turnover 57% menor e queda de quase dois terços em dias de afastamento por doença): 4 Day Week Global e Autonomy Institute, 2025.

#Perguntas frequentes

O piloto da semana de 4 dias no Brasil funcionou?
Nos indicadores que mediu, sim. Entre as 21 empresas participantes, 71,5% dos participantes perceberam aumento de produtividade, 60,3% relataram mais engajamento, a exaustão frequente caiu 72,8% e a ansiedade semanal caiu 30,5%, segundo o estudo conduzido pela 4 Day Week Brazil, a Reconnect Happiness at Work e pesquisadores da FGV EAESP.
Por que a maioria das empresas brasileiras abandonou a semana de 4 dias depois do piloto?
Segundo o InfoMoney, especialistas apontam uma barreira cultural (o país ainda discute a escala 6x1) e a piora do ambiente econômico em 2025 e 2026, que levou parte das lideranças de volta a modelos de gestão mais tradicionais. Até junho de 2026, apenas 2 das 20 empresas que concluíram o piloto mantinham o modelo de forma oficial.
Qual a diferença entre o piloto do Brasil e o do Reino Unido?
Os dois pilotos tiveram ganhos parecidos de produtividade e bem-estar durante o teste. A diferença apareceu depois: no Reino Unido, as 17 empresas participantes mantiveram o modelo já ao final do teste e ≈90% seguiam com ele um ano depois, com turnover 57% menor. No Brasil, só 2 das 20 empresas mantinham o modelo oficialmente em junho de 2026.
A semana de 4 dias aumenta o custo de pessoal?
Pode aumentar se a jornada for comprimida sem simular hora extra e cobertura nos dias e horários de pico, transformando a folga em hora extra disfarçada. Empresas que planejam o cenário de custo antes de testar, com e sem a redução, chegam à decisão com um número, não só com a percepção de clima do piloto.
Como uma empresa deve planejar antes de testar a semana de 4 dias?
Quatro passos reduzem o risco: simular o custo de hora extra e reforço de equipe nos picos, modelar o cenário de custo de pessoal com e sem a redução antes de anunciar o teste, tratar a mudança como mais uma alavanca de custo de pessoal a ser decidida com rigor, e definir o critério de continuidade (produtividade, receita, retenção) antes do piloto começar, não durante nem depois.
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